Mineradora completa aniversário neste 24 de agosto operando com 60% da capacidade; plano de R$ 13,8 bilhões prevê retorno a 100% a partir de 2028, enquanto obrigações pelo rompimento de Fundão continuam em execução
Por Território Notícias/Roberto Verona
Quando a Samarco completar 49 anos nesta segunda-feira, 24 de agosto, os números da produção contarão apenas uma parte da história da mineradora. Às vésperas do cinquentenário, a empresa vive duas frentes que avançam ao mesmo tempo: opera com cerca de 60% da capacidade instalada e prepara R$ 13,8 bilhões em investimentos para voltar à produção integral, enquanto mantém obrigações de reparação decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em Mariana em novembro de 2015.
Fundada em 24 de agosto de 1977 e controlada em partes iguais pela Vale e pela BHP, a Samarco tem na produção de pelotas de minério de ferro sua principal atividade. Em quase cinco décadas, estabeleceu operações entre Minas Gerais e Espírito Santo. Mas sua trajetória passou a ser inevitavelmente dividida pelo desastre de Fundão, que interrompeu a produção durante cinco anos e provocou danos humanos, ambientais, sociais e econômicos ao longo da Bacia do Rio Doce.
A operação somente foi retomada em dezembro de 2020. Desde então, a companhia ampliou gradualmente a produção e modificou a forma de disposição dos rejeitos. O próximo objetivo é chegar novamente a 100% da capacidade instalada a partir de 2028. A reparação, porém, seguirá por um calendário próprio e permanece entre as principais obrigações da mineradora.
Produção chega a 59,6 milhões de toneladas desde a retomada
Atualmente, a Samarco opera com aproximadamente 60% de sua capacidade. Entre janeiro e julho de 2026, foram produzidas 9,09 milhões de toneladas de pelotas e finos de minério. Considerando o período entre a retomada, em dezembro de 2020, e julho deste ano, a produção acumulada alcançou 59,6 milhões de toneladas.
A próxima etapa está concentrada no chamado Momento 3. O projeto prevê novos ativos na Unidade de Germano, em Mariana, e a retomada das usinas de pelotização 1 e 2 na Unidade de Ubu, no Espírito Santo.

Com a conclusão dessa etapa, a previsão da empresa é alcançar entre 26 milhões e 27 milhões de toneladas anuais de pelotas e finos de minério de ferro a partir de 2028.
Para chegar a esse patamar, foram aprovados R$ 13,8 bilhões em investimentos. Em Minas Gerais, o planejamento inclui a revitalização de uma planta de concentração, uma nova unidade de filtragem e uma estrutura para disposição de rejeitos filtrados em pilha seca. No Espírito Santo, duas usinas de pelotização passarão por revitalização e modernização.
Questionada pelo Território Notícias sobre quanto desse montante já foi efetivamente executado, a Samarco informou que não divulga esse valor neste momento.
Momento 3 deve abrir cerca de 13 mil vagas
A expansão operacional deverá aumentar também a demanda por trabalhadores. Segundo a mineradora, aproximadamente 13 mil novas vagas, entre postos próprios e contratados, deverão ser abertas nos próximos anos em Minas Gerais e no Espírito Santo.
Atualmente, a Samarco informa manter cerca de 20,5 mil trabalhadores nos dois estados. Desse total, aproximadamente 2,7 mil são empregados próprios e 17,7 mil atuam por empresas contratadas. A companhia afirma que orienta suas contratadas a priorizarem mão de obra das localidades próximas às operações.
Para Mariana, onde está localizado o Complexo de Germano, o avanço do Momento 3 significa concentração de parte relevante dos investimentos industriais previstos para os próximos anos.
Mariana terá R$ 89,5 milhões em ações previstas para 2026
Além dos investimentos diretamente ligados à operação, a Samarco informou ao Território Notícias que prevê aproximadamente R$ 89,5 milhões em ações estruturantes e socioeconômicas em Mariana ao longo de 2026.
Entre as iniciativas citadas pela empresa estão o Programa de Bens Públicos, o Compromisso de Longo Prazo, melhorias de acesso em Camargos, o Reservatório de São Pedro, a Câmara Cultural Mariana Viva e a Semana de Diversificação e Desenvolvimento Econômico.

Também foram mencionadas ações nas áreas de educação, cultura e empreendedorismo.
Em Ouro Preto, a previsão apresentada pela mineradora é de cerca de R$ 36,5 milhões em investimentos estruturantes e sociais neste ano, incluindo iniciativas no distrito de Antônio Pereira e recursos vinculados ao Compromisso de Longo Prazo.
Os investimentos chegam a municípios cuja rotina econômica mantém forte ligação com a mineração. Em Mariana, essa relação convive com outra realidade: comunidades atingidas por Fundão ainda acompanham indenizações, reassentamentos e medidas de recuperação relacionadas ao desastre de 2015.
Operação atual não utiliza barragens para depositar rejeitos
Uma das principais mudanças operacionais desde a retomada ocorreu no tratamento dos rejeitos.
Segundo dados fornecidos pela Samarco, aproximadamente 80% dos rejeitos gerados atualmente são filtrados e destinados ao empilhamento a seco. Os 20% restantes, formados por ultrafinos, seguem para a cava confinada de Alegria Sul.
Desde dezembro de 2020, a empresa afirma não utilizar barragens para disposição de rejeitos.

Nesse período, cerca de 29 milhões de toneladas de rejeito arenoso foram aproveitadas nas obras de descaracterização da barragem de Germano. O volume corresponde, segundo a mineradora, a 67% do material desse tipo gerado desde a retomada. Apenas em 2026, o índice de aproveitamento informado chegou a 96%.
A Samarco afirma ainda que as estruturas geotécnicas sob sua responsabilidade são monitoradas continuamente por aproximadamente 2 mil equipamentos. As obras de descaracterização da Cava do Germano foram concluídas, enquanto o processo na barragem de Germano permanece em andamento.
Reparação soma R$ 82,8 bilhões desde 2015
Enquanto a produção voltou a crescer, a reparação segue um percurso mais longo e continua no centro da história recente da companhia.
Nos primeiros anos após o rompimento, parcela significativa das indenizações, compensações e ações de recuperação foi executada pela Fundação Renova, criada em 2016 e atualmente em processo de liquidação. O modelo foi alterado com o Novo Acordo do Rio Doce, homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em novembro de 2024.


Pelos números apresentados pela Samarco ao Território Notícias, R$ 43,3 bilhões foram destinados às ações de reparação desde a homologação do novo acordo até julho de 2026.
Considerando todo o processo desde 2015, o montante informado chega a R$ 82,8 bilhões. O volume financeiro ajuda a dimensionar a reparação, mas não encerra as obrigações: parte das medidas continuará sendo executada nos próximos anos.
O Novo Acordo prevê R$ 100 bilhões em obrigações de pagamento ao poder público, destinados a políticas públicas e ações estruturantes, além de R$ 32 bilhões em obrigações de fazer executadas diretamente pela Samarco. Outros R$ 38,3 bilhões haviam sido destinados às ações conduzidas pela Fundação Renova até setembro de 2024.
Mariana adere ao acordo após negociação adicional
Às vésperas do aniversário de 49 anos da Samarco, uma mudança importante ocorreu justamente em Mariana. Na quarta-feira (19), o município aderiu ao Novo Acordo do Rio Doce, mais de um ano depois de ter ficado fora da repactuação por considerar insuficientes as condições apresentadas inicialmente.
Com a assinatura, Mariana passa a ter acesso aos R$ 1,2 bilhão destinados ao município no acordo homologado pelo STF, com pagamentos previstos ao longo de 20 anos. Segundo a Prefeitura, uma negociação separada com a Samarco resultou em outro compromisso de R$ 1,2 bilhão, a ser pago em seis parcelas. Os dois valores somam R$ 2,4 bilhões, mas correspondem a compromissos distintos, com prazos e condições diferentes.

Para Rodrigo Vilela, presidente da Samarco, a adesão dos municípios amplia a execução negociada das medidas previstas para a Bacia do Rio Doce. “A ampla adesão pelos municípios demonstra que o Novo Acordo do Rio Doce é o caminho legítimo para a reparação”, afirmou.
A adesão do município não interfere nas ações mantidas por pessoas físicas e empresas na Justiça inglesa, que, segundo o prefeito Juliano Duarte, continuam em andamento.
Mais de 341 mil pessoas foram indenizadas
Até agosto deste ano, mais de 341,8 mil pessoas haviam sido indenizadas no âmbito do Novo Acordo do Rio Doce, conforme balanço fornecido pela empresa.
Desse total, mais de 316,8 mil receberam pagamentos pelo Programa Indenizatório Definitivo (PID), que somavam aproximadamente R$ 11,6 bilhões.

Em Mariana, permanecem em execução medidas relacionadas a indenizações, reassentamentos, recuperação ambiental e outras obrigações previstas no acordo.
Nos reassentamentos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu, a Samarco informou que as obras previstas antes do Novo Acordo estão concluídas. Em Novo Bento Rodrigues, quatro imóveis adicionais, definidos posteriormente, ainda estavam em execução, com entrega prevista para 2026.
Recuperação ambiental terá acompanhamento de longo prazo
Na frente ambiental, os dados apresentados pela mineradora apontam mais de 47,3 mil hectares protegidos em áreas de restauração e 4,5 mil nascentes cercadas e protegidas na Bacia do Rio Doce.

A Samarco também informa ter repassado mais de R$ 278 milhões a instituições de pesquisa de Minas Gerais e do Espírito Santo responsáveis pelo monitoramento da biodiversidade aquática.
Parte das ações ambientais previstas no acordo poderá se estender por até 15 anos, o que coloca a recuperação da bacia além do calendário da retomada integral da produção.
Cinquentenário se aproxima com produção e reparação em paralelo
Aos 49 anos, a Samarco ainda não encerrou o ciclo iniciado com o rompimento de Fundão. A empresa voltou a produzir, ampliou gradualmente sua capacidade e prepara um novo pacote de investimentos industriais, mas continuará atravessando os próximos anos com obrigações de reparação que não terminam com a recuperação da produção.
Ao ser questionada pelo Território Notícias sobre que empresa pretende ser ao completar 50 anos, em 2027, a Samarco afirmou que busca chegar ao cinquentenário com foco em segurança, responsabilidade, sustentabilidade e relacionamento com os territórios.

Ao tratar especificamente de Mariana e Ouro Preto, a própria Samarco reconheceu que Fundão permanece como parte incontornável de sua trajetória. “O rompimento de Fundão é um marco que jamais será esquecido”, afirmou a empresa em resposta ao Território Notícias.
Em 24 de agosto de 2027, a Samarco completará meio século. Até lá, o Momento 3 deverá avançar, novas vagas estarão ligadas à expansão e obras industriais estarão em curso em Germano e Ubu. O cinquentenário, porém, chegará antes do fim de várias obrigações relacionadas ao desastre de 2015.
É esse contraste que acompanha a mineradora aos 49 anos: de um lado, uma operação novamente em crescimento e com planos de retornar à capacidade integral; do outro, uma reparação que continuará para além dos 50 anos da empresa. Em Mariana, onde Fundão permanece presente na história das comunidades atingidas e da própria Samarco, os dois caminhos ainda seguem lado a lado.









