Por Pedro Hudson
Na noite desta terça-feira (26), com o Cineteatro tomado por grupos de congados, folias de reis, capoeiras e pelos povos quilombolas do município, a Secretaria de Patrimônio Cultural realizou a primeira edição da Rodada Criativa, uma série de rodas de conversa para fomentar a troca de experiências entre agentes culturais.
A iniciativa integra o eixo de formação do programa Desponta Mariana e acontecerá em diversos pontos da cidade, trazendo especialistas para promover um intercâmbio de conhecimentos com a comunidade local. O primeiro encontro foi voltado aos povos tradicionais, com o objetivo de aproximar essas comunidades das políticas públicas e ampliar o acesso à informação.
A roda de conversa contou com a mediação de Makota Kidoiale, educadora e integrante da Comunidade Quilombola Manzo Ngunzo Kaiango, em Belo Horizonte, e teve a participação da historiadora Deolinda dos Santos, do fotógrafo Israel Abrantes, do chefe do Escritório Técnico do Iphan em Mariana, Leandro Batista, além do coordenador de promoção do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), Saulo Carrilho.
O encontro dialogou com os grupos sobre as possibilidades de preservação de suas tradições por meio da tecnologia e com o apoio dos jovens, além de formas de facilitar o acesso das comunidades aos editais de incentivo à cultura. Além disso, abordou-se o reconhecimento de comunidades locais como quilombolas, a exemplo do subdistrito de Campinas, reconhecido em 2025 juntamente com o distrito de Barretos, em Barra Longa, pela Fundação Palmares.
A abertura do evento contou com um cortejo dos grupos convidados, partindo da Praça Minas Gerais até o Cineteatro, e encerrou-se com a certificação desses grupos pelo Iepha. A entrega dos certificados foi feita por Saulo Carrilho, que reforçou a importância do instituto estar ao lado dos gestores culturais neste momento de escuta: “Estar em Mariana, discutindo com esse microfone aberto e percebendo que as políticas acontecem nas cidades e para as pessoas, é exercer o patrimônio aberto. O Iepha está sempre de portas abertas para esse tipo de diálogo: de pertencimento e da ancestralidade que mora em cada uma das pessoas”, afirmou.
Para Roberta Alves, da comunidade quilombola Campina-Barreto, foi gratificante compartilhar experiências no Cineteatro. Ela ressaltou a alegria de ver os povos tradicionais ocupando um espaço onde antes eram marginalizados: “Estar nesse espaço onde, antigamente, quando o negro entrava era mal visto, e hoje sermos bem recebidos para debater com o Poder Público, nos mostra que podemos abrir novos caminhos e criar esperança, principalmente para nossos idosos”, celebrou.
A noite contou ainda com o pré-lançamento do livro “Minas em Festa”, da historiadora Deolinda dos Santos e do fotógrafo Israel Abrantes. A obra reúne registros de manifestações religiosas, evidenciando a conexão cultural entre os povos tradicionais de Minas Gerais.
Em sua fala, Makota Kidoialê ressaltou a riqueza cultural de Mariana, que vai além do que é comumente veiculado: “A gente tem um recorte de uma cultura em Mariana que é muito colonial. Mas, quando chegamos aqui e encontramos uma cultura preta viva, ocupando a cidade e o teatro municipal para receber um certificado de que ela própria é a gestora de sua cultura, damos o primeiro passo para construir uma reparação”, concluiu.
A expectativa é que as rodas de conversa ocorram a cada dois meses, abordando temas como economia criativa, artes cênicas e artesanato. A próxima edição acontece em agosto e receberá o coordenador do Núcleo de Cultura do TCE-MG, João Miguel, para dialogar sobre o direito à cultura e as políticas públicas no estado.














