Concessionária enfrenta primeiras pressões após assumir rodovias entre Nova Lima e Rio Casca, enquanto prefeitos, moradores e lideranças cobram melhorias, transparência e segurança
A chegada da concessionária Rota da Liberdade ao trecho rodoviário que liga Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a Rio Casca, na Zona da Mata mineira, tem provocado reações distintas entre moradores, lideranças políticas e gestores públicos. Se por um lado há cobranças por obras imediatas e respostas rápidas, por outro, prefeitos e representantes da região defendem que o início da concessão seja marcado pelo diálogo e pela construção conjunta das soluções.
A empresa assumiu oficialmente, em março deste ano, a administração de 190,1 quilômetros das rodovias BR-356, MG-262 e MG-329, passando por municípios estratégicos como Itabirito, Ouro Preto, Mariana, Ponte Nova e Rio Casca. O contrato de concessão terá duração de 30 anos e prevê investimentos bilionários em duplicações, manutenção, modernização da infraestrutura e operação das vias.
Mas os primeiros 60 dias de atuação já mostraram o tamanho do desafio que a concessionária terá pela frente.
Nesta semana, representantes da empresa participaram de uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), marcada por cobranças de moradores, vereadores e lideranças locais. Entre os principais pedidos apresentados estavam melhorias emergenciais na pista, maior agilidade nos serviços de manutenção, esclarecimentos sobre futuras desapropriações e mais transparência sobre o cronograma das intervenções.
O deputado estadual Adriano Alvarenga, que presidiu a audiência, afirmou que a população não está pedindo grandes obras neste primeiro momento, mas sim serviços básicos de conservação e segurança viária.
Segundo ele, moradores reclamam de problemas históricos nas rodovias, como buracos, erosões, mato alto e falta de manutenção contínua.
Representantes da concessionária ressaltaram que a empresa ainda está em fase inicial de operação e que os trabalhos seguem dentro do cronograma contratual. Em nota, a Rota da Liberdade informou que já executa serviços emergenciais voltados à recuperação das condições de tráfego e segurança, incluindo tapa-buracos, revitalização da sinalização, roçada, limpeza e correção de erosões.
O clima de insegurança e desconfiança também aparece entre moradores que vivem às margens das rodovias e em cidades diretamente impactadas pela concessão. Em Mariana, por exemplo, uma das maiores preocupações envolve a instalação de praças de pedágio e possíveis remoções de famílias para execução das obras.
Durante debate na Câmara Municipal, o vereador Ítalo de Majelinha afirmou que a população cobra mais informações sobre os impactos da concessão e os critérios que serão adotados pela empresa em eventuais indenizações.

Já o prefeito de Mariana, Juliano Duarte, criticou a situação enfrentada pelo município, lembrando que a cidade já sofreu fortemente os impactos do rompimento da barragem de Fundão e agora convive com a perspectiva de cobrança de pedágio no acesso à capital mineira.
O prefeito relatou ainda que equipes da própria prefeitura precisaram atuar durante a noite para tapar buracos em trechos da rodovia devido ao risco de acidentes e às cobranças da população.
Em resposta às críticas, o diretor da concessionária, Marconi Zanon, afirmou que a empresa possui um plano emergencial de 100 dias e prometeu ampliação do ritmo das intervenções já nas próximas semanas.
Enquanto em alguns municípios predominam as cobranças, em Ouro Preto o cenário começa a ser construído sob uma perspectiva mais conciliadora. A cidade sediou uma reunião entre representantes da Prefeitura, técnicos da concessionária e integrantes da Fundação Gorceix, marcando o início do diálogo institucional sobre as obras previstas para a BR-356.
O prefeito Angelo Oswaldo destacou que grandes mudanças costumam gerar apreensão, especialmente entre moradores que convivem diariamente com os impactos das rodovias. Para ele, o momento exige equilíbrio, transparência e construção coletiva.

Segundo o prefeito, a concessão representa uma oportunidade de transformação regional, com potencial para ampliar a segurança viária, fortalecer o turismo, gerar empregos e impulsionar a economia da Região dos Inconfidentes.
Durante o encontro, Angelo Oswaldo afirmou que a empresa inicia um processo de entendimento com os municípios e ressaltou que as demandas da população precisam ser tratadas com responsabilidade e diálogo permanente entre concessionária, prefeituras e câmaras municipais.
A reunião também definiu que a Fundação Gorceix poderá atuar na formação técnica de trabalhadores da região para atuação nas futuras obras da rodovia, criando novas oportunidades de emprego ligadas ao projeto.

O diretor institucional da concessionária, Marconi Zanon, reforçou que a proposta é construir uma relação de parceria com os municípios ao longo das próximas décadas de concessão.
A Rota da Liberdade foi formada pelo grupo vencedor do leilão realizado pelo Governo de Minas Gerais na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), em setembro de 2025. O consórcio reúne as empresas Metropolitana, Quebec, JCP, Abra, Contorno e Renova, responsáveis por uma proposta de aproximadamente R$ 1,7 bilhão.
Considerado um dos maiores projetos de infraestrutura viária em execução no estado, o contrato prevê impactos diretos em 11 municípios mineiros, com promessa de redução do tempo de deslocamento, aumento da segurança nas estradas e modernização dos corredores logísticos e turísticos da região.

Apesar das críticas e das cobranças iniciais, lideranças regionais avaliam que o momento ainda é de construção de confiança entre a população e a concessionária. Em cidades historicamente marcadas por acidentes, problemas de infraestrutura e longos períodos sem investimentos consistentes, a expectativa é que o diálogo aberto entre empresa, poder público e moradores seja determinante para o sucesso — ou fracasso — da concessão nos próximos anos.














